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“POR FALAR EM AMIZADE”


Foi esse o prelúdio de nossa amizade; daí a centelha da afinidade; (…) concordes no anseio do mesmo ideal; unidos por amizade cada dia mais estreita e firme… ambos tínhamos por sua a glória do outro. Parecia uma só alma, em dois corpos”. (Ofício das Leituras de 02 de janeiro).

Uma das passagens que mais me emociona no Segundo Testamento é o choro de Jesus ao saber da morte de um de seus amados: Lázaro, irmão de Marta e Maria, em Bethânia (Jo 11,33-37). Normalmente dispenso muito tempo contemplando esse choro, o evangelista emoldura a cena de forma tão intensa, conseguindo eviscerar a humanidade de Jesus a tal ponto que imprimi, na mesma proporção, um tom transcendente à amizade entre os dois.

Para se avaliar a importância que o amigo Lázaro e suas irmãs tinham na vida de Jesus, precisamos recordar que em todo seu ministério público, Jesus chorou em apenas outros dois momentos (Lc 19,41 e Lc 22,44). Ele não chorou no deserto, manteve-se firme na obediência da cruz, mas se rendeu ao choro pelo amigo. Que sentimento tão intenso é esse que o ligava à Lazaro, comovendo-o às lagrimas?

Podemos deduzir, a partir deste quadro, que algumas amizades ganham contornos de ligação espiritual entre aqueles que vão se escolhendo pelo caminho, não se restringindo apenas a uma relação interpessoal ordinária, mas, antes, verdadeira comunhão de espíritos.

Este conceito de amizade espiritual, aliás, é bem antigo no cristianismo e podemos citar inúmeros casos: Francisco e Clara, Agostinho e Alípio, Perpétua e Felicidade… Gosto destacadamente de uma carta escrita por Gregório Nazianzeno – Patriarca de Constantinopla e um dos mais notáveis teólogos da era patrística, relatando sua amizade com Basílio Magno, no século IV:

Foi esse o prelúdio de nossa amizade; daí a centelha da afinidade; (…) concordes no anseio do mesmo ideal; unidos por amizade cada dia mais estreita e firme… ambos tínhamos por sua a glória do outro. Parecia uma só alma, em dois corpos”. (Ofício das Leituras de 02 de janeiro).

E essa experiência vai se atualizando ao longo da história humana…

Já ouvi e fui testemunha um sem-número de vezes dos encontros que vão acontecendo pelo caminho e unem pessoas que mesmo sem nunca terem se visto, em poucas horas se tornam amigos de infância, criando laços que superam anos de convivência.

Evidente que ordinariamente amizade é construção, cultivo constante, reciprocidade, requer paciência e cuidado com o outro, mas existem algumas pessoas tão singulares, que possuem o dom de relativizar o tempo neste processo. Se você encontrar alguém assim, agradeça, a vida está lhe dando um presente. Comigo aconteceu uma única vez e partilho a experiência com vocês.

Pelos idos de 2007 estava preparando uma viagem estilo mochilão para Machu Picchu – que até hoje não aconteceu, e na busca por informações de roteiro, o que levar na mochila e dicas para me safar de uma eventual enrascada internacional, entrei numa comunidade da rede social predominante à época e comecei a interagir com os participantes. Em pouco tempo a conversa começou a fluir mais largamente com um uruaçuense radicado em Palmas/TO. O Lucas é uma daquelas pessoas raras que a vida te concede o privilégio de encontrar, ele está um passo à frente na caminhada, é uma das pessoas que mais me inspira.

Com fases mais próximas e outras nem tanto, nunca nos desligamos, apesar dos longos hiatos de ausência. O mais curioso vem agora: toda vez que algo de muito intenso acontecia em minha vida, invariavelmente nos aproximávamos, mesmo sem ele ter a ciência dos fatos.

Sou muito cético para crer em coincidências. Proponho outra explicação para essa sintonia tão fina, superando a experiência puramente antropológica e tangendo exatamente à essa experiência teologal já tão bem relatada na passagem evangélica e descrita por Gregório.

Ter amigos é a melhor forma de minimizar o peso da existência, deixando-nos mais leves e aptos para essa aventura que se chama viver. E mais, algumas sensações somente os amigos podem nos proporcionar: a fidelidade que dispõe de laços de sangue, a gratuidade na adesão de seus projetos, a presença altruísta nos dias difíceis…

Nessa conjuntura de fascismo crescente, relações de ódio e intransigência  em que a sociedade está mergulhada é uma urgência que exercitemos continuamente a capacidade do encontro, do cuidado com outro e da partilha de vida.

Tenhamos, sim, uma jornada cheia de bons amigos: daquelas velhas amizades que dispensam palavras e se reconhecem apenas no olhar cúmplice de quem já viveu tantas coisas, bem como daqueles bons novos amigos que chegam em nossa vida e no turbilhão das descobertas nos tiram e nos devolvem ao centro, nos ajudando a ir além.

Por fim, em abril de 2017, fazendo memória dos 10 anos desse encontro, Lucas e eu fizemos o mochilão que estávamos nos devendo. Não foi para Machu Picchu, como outrora planejado, mas sim para Colômbia, no coração da América Latina, a amada Pátria Grande.

Deixo este texto em homenagem ao grande amigo Lucas, que entre as missões que lhe foram confiadas nesta existência, uma delas é sempre me lembrar a necessária ‘mania de ter fé na vida’.

Obrigado, meu irmão, bons ventos e sempre na paz!

Gratidão.

Márcio Oliveira

Secretário do CNLB Sul I

Comissão Nacional de Formação

Uma resposta ““POR FALAR EM AMIZADE””

  1. Clarice
    20 de julho de 2017 em 10:50 PM

    que texto maravilhoso …. realmente amizades sinceras são combustíveis pra uma vida mais feliz …. estou muito orgulhosa com tanta sabedoria nesse amigo que conheço tão pouco e há um pequeno tempo da linha desta vida …. Márcio vc foi excepcional neste texto ! Amei !!!!!!!

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