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OLHA QUE ESTOU À PORTA E BATO


Onde se localiza o ponto de encontro entre, de um lado, o Senhor que bate à porta, e, de outro, o ser humano que, sedento, busca a sua face oculta e luminosa? Existe um lugar ou momento privilegiado para tal encontro? Duas respostas podem ser avançadas. A primeira vem de Santo Agostinho. “Estimulado a reentrar em mim mesmo, sob a tua orientação, entrei na intimidade do meu coração, e pude fazê-lo porque tu me foste de ajuda. Entrei e vi com os olhos de minha alma, o que quer que isso seja, uma luz inatingível sobre o meu próprio olhar interior e sobre a minha inteligência. Não era uma luz terrena e visível que esplende diante do olhar de cada homem (…). Era uma outra luz, muito diversa de todas as luzes do mundo criado (…). Tarde te amei, beleza tão antiga quanto nova, tarde te amei. E eis que tu estavas dentro de mim e eu estava fora e lá te procurava. Estavas comigo e eu não estava contigo” (Confissões). A segunda resposta vem das palavras da carta do anjo à Igreja de Laodicéia, no Livro do Apocalipse: “Já estou chegando e batendo à porta. Quem ouvir minha voz e abrir a porta, eu entro em sua casa e janto com ele, e ele comigo” (Ap 3,20).

De Santo Agostnho, inferimos que um dos “lugares” privilegiados para o encontro entre Criador e criatura é o interior mesmo da pessoa humana. Quando se põe a refletir sobre a própria vida e resolve escrever as Confissões, o pastor e doutor da Igreja, com alegre surpresa, descobre a presença do Senhor no mais íntimo de suas entranhas. Conclui-se, portanto, que a oração, a meditação e a contemplação constituem juntas o caminho que leva ao rosto de Deus. Emerge com força a figura de Jesus de Nazaré: o Filho que busca o rosto do Pai em longas noites passadas “na montanta, no deserto ou em um lugar à parte”, o Pai que habita o coração e a alma do Filho com a Boa Nova do Reino; a criatura que insiste em conhecer o Criador, o Criador que reveste de luz toda a criação; o homem que sobe em busca de Deus, Deus que desce e “arma sua tenda entre os homens”. Em termos sintéticos, Jesus Cristo, pessoa humano-divina: o homem e Deus que se buscam e se atraem reciprocamente. “Vinda da Casa de Deus, a alma vive irrequieta até retornar e repousar junto do mesmo Deus”, conclui ainda Santo Agostinho.

No Livro do Apocalipse, o lugar do encontro é a mesa: “janto com ele e ele comigo”. Historicamente a mesa é símbolo por excelência do encontro. Nela os convidados nutrem-se simultaneamente da comida e da presença dos outros. Enquanto a comida alimenta o corpo, os outros alimentam o olhaer, a conversação e o espírito. Ou melhor, o outro é o melhor tempero de uma refeição, conferindo-lhe um sabor todo especial. Disso resulta que ao contrário dos animais, o comer humano tem um caráter sagrado, o que explica a liturgia da mesa: toalhas, flores, velas, enfeites. Além disso, quanto mais profunda a intimidade e a relação dos que se sentam à mesma mesa, mais saboroso será o alimento. Basta constatar o silêncio mudo e gelado de uma janta solitária ou a tensão de um encontro à mesa logo após um conflito familiar ou comunitário. Isso de um lado. Do outro, a amizade festiva, na hora da ceia, de um grupo que se ama e se quer bem.

A presença do outro ou dos outros faz da mesa uma festa. Via de regra, somos convidados e participamos com gosto a um banquete não porque temos fome de comida, mas porque temos fome da presença dos demais convidados. Mais que o alimento, atrai-nos à festa o reencontro com os seres queridos. E neste caso, após a última e íntima ceia de Jesus com seus discípulos, verifica-se a grande transfiguração: a mesa se converte em altar, o banquete em eucaristia e o alimento no corpo e sangue de Jesus. Oferencendo-se em alimento, o Mestre naquela ocasião, e hoje, convida cada um de nós a ser alimento para as pessoas com as quais habitamos, trabalhamos e convivemos. Eucaristia transforma-se em encontro com o Senhor que, no mistério do sacramento, desdobra-se em encontro comigo mesmo e com os outros, com o conjunto da comunidade. Momento central e vital do seguimento de Cristo. Ao mesmo tempo, ponto de chegada e ponto de partida de todo percurso pessoal, familiar e comunitário.

Roma, 9 de setembro de 2017

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

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