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Hoje: 18/11/2017 e são 21:27

Se um negro erra, culpam a todos os outros; quando é um branco, é caso isolado!


No ano passado, a morte do jovem negro Michael Brown, depois de diversos disparos feitos por um policial branco, causou uma onda de protestos em Ferguson, na periferia de Saint Louis (Missouri), nos Estados Unidos. As manifestações promoveram o debate sobre racismo e violência policial e ajudaram a impulsionar a campanha #BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam). 

Por Vitor Taveira

Convidada para um debate sobre juventude e segurança pública no evento Emergências, realizado no Rio de Janeiro no começo de dezembro, a ativista Ashley Yates, que participou dos protestos de Ferguson e é articuladora da #BlackLivesMatter, convidou os participantes a fechar os olhos por um instante e imaginar uma local e situação em que se sentissem seguros. Após abrir os olhos, provocou: “alguém aqui imaginou policiais neste lugar seguro?”.
Ativa nas redes sociais como Twitter e Instagram, com a alcunha de Brown Blaze, Yates conversou com Opera Mundi na capital fluminense.

Opera Mundi: Que semelhanças vê entre o Brasil e os Estados Unidos em relação ao tema racial e à repressão policial?

 Ashley Yates: Saint Louis, de onde venho, é um lugar muito segregado entre brancos e negros. Eu ouvi que Brasil também é assim, que há racismo. Aqui mataram cinco garotos em um carro e eu li na internet que a polícia ficou ao redor, não socorrendo depois de atirar, mas olhando a comunidade reclamando para fazer algo. E assim foi em Ferguson, eles deixaram Mike Brown na rua por 4 horas e meia. Não só o mataram, mas o deixaram na rua como se fosse um cachorro, como se uma vida negra não importasse, como se não fosse um humano.

OM: Por que a morte de Michael Brown teve tanta repercussão?

AY: As pessoas da vizinhança começaram a sair de suas casas e a chamar outras. Sabiam que alguma coisa estava errada, que algo estava acontecendo. Na cidade de Saint Louis, há muita pobreza, o sistema escolar é muito ruim, especialmente para as pessoas negras, o índice de encarceramento é muito alto. Sempre somos assediados pela polícia, eles vêm nos violentam e matam. Quando se mata alguém numa cidade tão tensa, acontece esse tipo de revolta.

Nos Estados Unidos, já havia casos como o assassinato de Trayvon Martin em 2012, em que muitas pessoas ficaram furiosas. Na cidade de Saint Loius, nós sabíamos que, se houvesse um caso desses, as pessoas seriam capazes de se organizar.  O caso de Mike Brown fez com que as pessoas dissessem “já basta”, que esse seria o último caso, e decidiram agir.

OM: Como a mídia cobriu o tema e qual a importância da Internet para difundir informações?

AY: No primeiro momento, quando mataram Mike Brown, nem mesmo disseram seu nome, atuando como se fosse um cachorro. A mídia disse apenas “é um homem”. Ele tinha 17 anos, eu não sei quem é homem ou mulher aos 17 anos. Era uma criança, um jovem. Eles diziam que sua família era pobre e que mereceu isso.

Depois disso, durante os protestos nos reprimiram jogando gás lacrimogêneo. Transmitiam na TV ao vivo, diziam que tínhamos armas, mas não era verdade. E mostramos na internet que não era nada disso, colocamos vídeos mostrando que as pessoas eram pacíficas, tinham suas mãos levantadas, que havia crianças lá. Então fomos capazes de mostrar que o que os meios de comunicação diziam era uma mentira e que nós estávamos dizendo a verdade. Mas isso só foi possível por causa da internet, porque a mídia não estava nos ajudando.

OM: Seria diferente se Mike Brown fosse branco?

AY: Sim. Você nunca vai ver nos Estados Unidos um branco sendo morto pela polícia e deixado na rua por quatro horas e meia. Isso é o que costuma acontecer desde tempos da escravidão. Como nos linchamentos, em que penduravam o pescoço dos escravos numa árvore e os deixavam lá, para que todos pudessem ver e dizer “isso é o que acontece com pessoas negras”. Parece um linchamento de hoje, só que não o penduraram numa árvore, o deixaram morto na rua.

Você não vê isso acontecer com uma pessoa branca porque se considera que eles têm dignidade, suas vidas importam e nunca serão deixados na rua. Então seria diferente porque isso nunca aconteceria.

OM: Qual a importância da campanha #BlackLivesMatter?

AY: É imensa. #BlackLivesMatter significa que todas as pessoas importam: homem, mulher, crianças, pobres, ricos, educados, não educados. Não importa de onde você vem, se você é uma pessoa, sua vida tem valor.

Dizer que as vidas negras importam não quer dizer que outras vidas não importam. Nós sabemos que geralmente as vidas negras são as que têm menos valor. Se nós dizemos que a vida que tem menos valor importa, então todas as vidas importam.

Temos uma cor diferente, por isso somos vistos de outra maneira. A campanha #BlackLivesMatter mostra isso para todos, que vidas as negras importam, que nós temos dignidade. As palavras escolhidas são muito importantes porque no fundo estão dizendo: “parem de nos assassinar”.

OM: E é preciso que toda sociedade norte-americana tenha consciência…

AY: Atualmente, a sociedade norte-americana está muito irritada com os muçulmanos, no que chamamos de islamofobia. A maioria dos muçulmanos tem pele escura. Essa é uma nova maneira de odiar pessoas que não são como você.

Quando dissemos que vidas negras importam, isso inclui os muçulmanos. Também estamos combatendo a islamofobia. Sabemos que os muçulmanos estão sendo associados ao terrorismo e enfrentando perseguição. Recentemente tivemos um tiroteio na Califórnia e disseram “os muçulmanos fizeram isso”, então agora todos odeiam os muçulmanos.

Mas, quando um homem branco matou dez pessoas em Shelton (Oregon), ninguém disse “os cristãos fizeram isso”, ninguém disse “as pessoas brancas são más”.  Quando alguém de pele escura faz algo, culpam a todos nós; quando alguém branco faz algo de ruim, apenas ele é culpado. O que estamos dizendo é que se isso segue acontecendo, todos temos que nos levantar juntos, porque todas as vidas importam.

OM: A campanha #BlackLivesMatter consegue influenciar de alguma maneira nas plataformas das pré-campanhas presidenciais que estão acontecendo nos Estados Unidos?

AY: É difícil, pois eles tentam nos ignorar. É por isso que nós protestamos, porque quando milhares de pessoas saem às ruas, você não pode ignorá-las, fechar os olhos e dizer que não está vendo. Essa luta é difícil, mas temos feito alguns avanços, como, por exemplo, na proposta de reforma na justiça criminal, presente em algumas campanhas, pois a maioria das pessoas presas não devia estar lá. Alguns estarão na cadeia por 30 anos por crimes menores como pequeno porte de drogas como maconha.

O que acontece é que os políticos apoiam a polícia e dizem “eles são boas pessoas”. Fica parecendo que nós somos pessoas más. Dizem que temos que apoiar nossa polícia porque ela nos mantém seguros. E nós dizemos que a polícia não nos mantém seguros.

É difícil caminhar juntos nisso, mas estamos trabalhando nesse sentido, as pessoas estão vendo que, quanto mais barulho fizermos, quanto mais gritarmos, quanto mais falarmos sobre violência, as outras pessoas não podem nos ignorar e vão entendendo que polícia pode não ser segura. E então se perguntar: como podemos estar seguros? Isso exige uma mudança de pensamento, e mudar a mentalidade das pessoas é um processo lento, mas estamos avançando.

OM: O que Brasil pode aprender da experiência americana?

AY: Que a polícia não mantém as pessoas seguras. Ninguém se sente seguro com a polícia em seu redor. Ninguém se sente mais seguro com alguém com uma arma perto de você, que pode atirar e te matar. Tragédias como a de Ferguson fazem as pessoas se sentirem revoltadas e sem segurança, faz com que a vizinhança condene a ação policial, faz repensar sobre como a polícia deveria ser, qual a quantidade de polícia que precisamos, ou mesmo se realmente precisamos da polícia. Acho que também serve se estamos realmente articulados, porque tentam nos separar, entre brancos e negros, pobres e ricos e o #BlackLivesMatter está mostrando aos Estados Unidos que todos somos humanos, fazendo aprender como dialogar uns com os outros, como levar as coisas sendo diferentes, como estar juntos numa mesma ideia. Não acho que seja o caso do Brasil aprender conosco, mas de compartilharmos um com o outro nossas experiências.

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